quarta-feira, 20 de setembro de 2017


Normalmente o a palavra “crossdresser” é confundida com transexualidade ou travestilidade, mas não há ligação alguma entre essas três categorias.
“Crossdresser” é um fenômeno comum na sociedade, e nada mais é do que o comportamento de usar roupas diferentes do sexo anatômico. E isso, para o indivíduo adepto à prática, é necessário para compor sua autoestima, seja todos os dias ou apenas vez ou outra. Em geral, não há regras.
Na experiência “crossdresser” não existe a necessidade de realizar alterações corporais como, por exemplo, terapia hormonal ou uso de silicone. Além disso, ao contrário do que muitos pensam, a pessoa crossdresser não usa adereços do sexo oposto para se sentir excitada. Ser crossdresser é apenas mais uma das formas subjetivas da sexualidade se expressar na sociedade.
Outro ponto importante para ser elucidado, é que a maioria dos crossdressers possui identidade de gênero masculina, ou seja, não se sentem mulheres. Aliás, muitos possuem esposas e namoradas que apoiam e os auxiliam nas produções.
Pessoas crossdresser não são loucas ou devem ser "curadas”. São apenas seres humanos expressando a sua sexualidade.
Karlesy Stamm
Psicóloga Especialista em Sexualidade Humana CRP 08/16133 

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

SAPOS E PRINCESAS

RESENHA: VENCATO, Anna Paula. 2013. Sapos e Princesas: prazer e segredo entre praticantes de crossdressing no Brasil. São Paulo: Annablume.



 Reprodução da capa do livro resenhado

Francisco Cleiton Vieira Silva do Rego
Mestrando em Antropologia SocialUniversidade Federal do Rio Grande do NorteBolsista CAPES


A leitura da etnografia realizada entre crossdressers por Anna Paula Vencato promove ao leitor uma experiência significativa de transporte ao universo dos sujeitos que ela nos apresenta. São detalhes sobre homens que se vestem de mulheres, uma experiência transitória de posição no gênero diferente ao qual está habituado. Antes de se montar são sapos, com a montagem – maneira como chamam estar vestida de mulher –, são princesas.

Resultado de sua tese de doutoramento defendida em 2009, no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Sapos e Princesas: prazer e segredo entre praticantes de crossdressing no Brasil, editado pela Annablume, trata-se de um trabalho importante por situar de maneira não patologizante as experiências decrossdressings no nosso país. O livro se divide em cinco capítulos que situam o leitor de maneira detalhada entre os eventos organizados pelas crossdressers, e com isso, a análise de seus processos, a visibilidade de suas categorias nativas de explicação de suas práticas, e as nuanças entre noções de masculino e feminino, corpo e desvio.
Foram três anos de trabalho de campo, de 2007 a 2009 – iniciado de maneira mediada pela Internet no início de 2007 e efetivado face a face no final do mesmo ano –, que Vencato circula por histórias e vivências de se vestir do outro gênero entre homens de classe média e classe média alta do contexto São Paulo-Rio de Janeiro, principalmente. A autora se defronta com interlocutores multissituados, reunindo-se em ocasiões para compartilharem e se apoiarem nose vestir de mulher. Etnografia que se mostrou de difícil realização, pela dificuldade de acesso inicial.
A autora se defronta com uma série de negociações realizadas pelos sujeitos entre estar montada e suas outras instâncias de vida, como trabalho, relações familiares e amorosas etc. Definir essa experiência do crossdressingcomo simplesmente se vestir do outro gênero acaba por limitar o entendimento desse fenômeno, como bem nos explica a autora. Para o saber biomédico e psi, teríamos diante de nós uma experiência que representaria um transtorno de identidade de gênero. Afinal, desde que John Money (1981) surgiu com a naturalidade do gênero, e Stoller, em certa medida, institucionalizou tal transtorno, parece difícil, a este saber, pensar em diferentes maneiras de vivenciar o gênero que não seja o aliado à norma geral em vigor. Parece inconcebível a tais entendimentos que um homem possa desejar se vestir de mulher e construir todo um conjunto de esquemas interpretativos que continuem ou não com sua masculinidade quando não estiver montada. Parece que a transição, na maioria das vezes transitória, que essa experiência enseja, materializaria uma transfiguração do homem e do masculino que se permite transitivar-se pelo feminino e pela mulher.
Anna Paula ultrapassa os limites de como os sujeitos pensam as noções de gênero nessa experiência de crossdressing e reflete sobre as sociabilidades em torno de negociações, noções de desvio, hierarquias, diferenças, interferências corporais, vestuário, relações intrafamiliares a partir do crossdressing; e, o que descreve com detalhes, a organização, ou o que Simmel (1950) chamaria, a associação de indivíduos com pensamentos em comum, mas diferentes, sendo esse autor muito influente no trabalho de Vencato, inclusive nas entrelinhas.
As crossdressers se organizam em grupos secretos para se ajudarem na experiência se montar ou se vestir de mulher. Nisso, cria-se contornos de lidar com o medo de sair às ruas vestidas de mulheres e a de se reconhecerem enquanto crossdressers. Embora o Brazilian Crossdresser Club seja conhecido de certo modo, as identidades de seus membros são protegidas, uma vez que nem sempre têm revelado em casa sua prática. E, é através das relações estabelecidas por meio desse Clube que a autora irá realizar sua etnografia situada inicialmente no evento das Olim...piadas. Um evento grande que abarca socialidades entrecrossdressers e apoiadoras (Supportive Opposites, Genetic Girls) em um hotel afastado do olhar transeunte, que protege e dá liberdade para sentirem o vestir e o transitar no gênero feminino.
Esta resenha não me permite maiores delongas. Dentre as muitas contribuições deste livro encontram-se as observações da autora, de base etnográfica, de que as crossdressers não constituem um grupo homogêneo, podendo haver vários crossdressings – o que é importante para não engessar identidades. Além disso, pontua que não se trata de uma experiência de indivíduos transtornados ou doentes; e, a principal contribuição que visualizo é a de posicionar as falas desses sujeitos em esquemas de significado e de interpretação da própria vida de maneira legítima. São homens, “são quase mulheres”, estão entre o montar-se e o desmontar-se. São princesas aptas a viverem suas feminilidades, seu prazer, e sapos em terem suas práticas em segredo.

Referências Bibliográficas:
MONEY, John. 1981. Os papéis sexuais. São Paulo: Brasiliense.
SIMMEL, Georg. 1950. The Sociology of Georg Simmel. Translated and Edited by Kurt. H. Wolff. Glencoe, Illinois: The Free Press.


Francisco Cleiton Vieira Silva do Rego

Mestrando em Antropologia SocialUniversidade Federal do Rio Grande do NorteBolsista CAPESCurrículo Lattes

Um jovem é o novo rosto de uma empresa de maquiagem Por acaso ficar bonito não é coisa de homem?


“Olá, meu nome é James, pode me passar o rímel?”
Não é nenhuma novidade que os garotos se maquiem. David Bowie fez isso há mais de 40 anos, criando uma tendência que se resolveu chamar de glam rock. A novidade é que o rosto da campanha de uma empresa de produtos de maquiagem − que, ainda por cima, chama-se CoverGirl (“garota da capa”) − pertença a alguém que responde pelo nome de James Charles. E quem é James Charles? Ele se apresenta assim no Instagram: “Artista de maquiagem de 17 anos, cantor ocasional e covergirl”. James é um garoto.
Ainda é necessário esclarecer que gênero, sexo e orientação sexual não têm relação. A escolha de uma ou outra roupa não significa uma determinada orientação. Aqueles que praticam o crossdressing (literalmente, “vestir-se ao contrário”) são, para o professor Brett Genny Beemyn, da Universidade de Massachusetts-Amherst (EUA), “indivíduos que assumem aparência e conduta que são consideradas por certa cultura como sendo de outro gênero, mas não pertencem a ninguém”. Segundo uma pesquisa feita em 1999, citada no livro Today’s Transgender Realities: Crossdressing in Context (2008), 48,8% dos crossdressers se definem como heterossexuais.

O tabu do rímel

Muitos homens usam maquiagem diariamente: atores, apresentadores de televisão, roqueiros... e sempre com intenção de parecer mais bonitos. Em outras culturas − dos nativos americanos a muitas tribos africanas −, os homens pintam o rosto com diversos significados. Em nosso ambiente cotidiano, entretanto, isso não é comum. Um estudo realizado em 2014 por pesquisadores de váriasuniversidades britânicas concluiu que os homens estão cada vez mais interessados em sua imagem, mas na hora de enfrentar a maquiagem “ainda se regem por uma versão convencional da masculinidade”.
Lamentavelmente, essa imposição de gênero faz com que a maioria daqueles que usam maquiagem prefira que não se saiba disso. Em uma pesquisa realizada em 2010 no Reino Unido, perguntaram a 1.800 homens se eles usavam maquiagem em segredo, e 11% responderam que sim. Destes, 71% recorriam ao corretor, 64% ao gloss de lábios e 49% ao delineador.
Também era impensável até pouco tempo atrás que os homens usassem perfumes de aromas florais e exóticos. Hoje, no entanto − após insistentes e atraentes campanhas publicitárias −, tais perfumes impregnam o pescoço de milhões de homens no mundo inteiro. Será que a CoverGirl conseguirá, finalmente, quebrar o tabu da maquiagem?

terça-feira, 29 de agosto de 2017

O que é um homem feminino?

Não sei ao certo, mas eu sou apenas uma pessoa que não se importa com barreiras de gênero nas minhas escolhas, e isso não se limita apenas as minhas roupas.

Me chamo Samantha Oliver (e Victor), nasci um homem biológico, tenho 28 anos, sinto meu lado feminino desde que eu era uma criança, uso roupas femininas desde a pré-adolescência, ultimamente tenho me visto como uma pessoa de gênero fluido, moro em Curitiba-PR, sou casada, a esposa sabe de tudo e me apoia, trabalho no dia a dia como engenheiro civil, não tenho filhos, convivo com dois gatos, dirijo um Fusca preto à 9 anos, gosto muito de música, sou baixista e aspirante a vocalista. Faltou algo?

Tenho dedicado meu tempo escrevendo esse blog principalmente por esses motivos:
- Questionar a visão de gênero da nossa sociedade, não deveríamos nos esconder a vida toda;
- Ajudar as meninas como eu com dicas para facilitar suas transformações, nem toda dica feminina serve para o corpo masculino;
- Poder me aproximar de outras pessoas que pensam igual.

Espero muito que gostem do meu trabalho ♥♥♥


Samantha Oliver

Autoginecofilia,

O termo Autoginecofilia, que significa literalmente "amor a si mesmo como mulher", foi criado pelo Dr. Ray Blanchard, que na ocasião era psicólogo clínico do Clarke Institute of Psychiatry, em Toronto, Canadá.

Com o objetivo, segundo ele, de aprimorar os critérios de classificação das pessoas trans, Blanchard partiu de um critério de excitação sexual que o levou a dividir a população transgênera em dois grupos que denominou, respectivamente, deautoginecofílico (ou autoginefílico) e androfílico.
Autoginecofilia

Um transgênero do tipo androfílico, que ele também denomina de transexual homo, é aquele que só se excita sexualmente com um homem. Segundo ele, esse tipo é menos propenso a fazer a cirurgia de reaparelhamento genital, porque o pênis continua sendo um detalhe importante na sua relação sexual.

Ao contrário, o transgênero autoginecofílico é aquele que se excita sexualmente com a idéia de estar sendo ele próprio uma mulher (Blanchard argumenta que nenhuma mulher se excita pelo fato de ser mulher...). O tipo autoginecofílico tem quase sempre o desejo cirúrgico, pelo fato do seu objeto de orientação sexual ser o seu próprio corpo feminino idealizado, donde Blanchard denominá-lo de trans hetero.

O autoginefílico é um homem que deseja ardentemente ser mulher, não pelo fato puro e simples de ser mulher, mas como um homem que “linka” sua excitação sexual masculina (tesão) com o fato de estar vivendo dentro de um corpo de mulher. Ou seja, ele deseja ser mulher para sentir-se dentro de um corpo de mulher, principalmente nas horas que busca expressar a sua sexualidade. Evidentemente isso não é a mesma coisa que desejar ser "completamente mulher", possuindo não só todos os atributos físicos e mentais de uma fêmea da espécie, mas também a sua identidade social e o seu estilo de vida (gênero feminino). É justamente esse torturante desejo de ser mulher, em todas as dimensões e sob todos os pontos de vista, que emblematicamente sempre caracterizou a transexualidade: - mulheres presas em corpos de homens.

AutoginecofiliaEm defesa da autoginefilia como causa da transexualidade, existem especialistas como a Dra. Anne Lawrence, ela mesma uma transexual operada de Seattle-EUA, que descreve o fenômeno como"homens presos em corpos de homens" (ao contrário da tradicional assertiva "mulheres presas em corpos de homens"). Como comprovação, ela apresenta o seu próprio caso, dizendo que a autoginecofilia é uma forma de parafilia (desvio da orientação sexual, como a BD/SM) voltada para o próprio corpo feminino. Argumenta ainda que, para um autoginecófilo, o objetivo de virar mulher equivale a casar-se para os heteros.

Em 2003, o Dr. J. Michael Bailey, da Northeastern University, publicou uma obra muito controversa que trata de autoginecofilia, denominada "O homem Que Seria Rainha: a Ciência da Mudança de Gênero e Transexualismo" (The Man Who Would Be Queen: The Science of Gender Bending and Transsexualism)

No livro, Bailey argumenta que a homossexualidade masculina é congênita e resulta da hereditariedade e do ambiente pré-natal no útero materno. Ele também sugere que a transexualidade é tanto um tipo extremado de homossexualidade quanto a expressão de uma parafilia, conhecida como autoginecofilia.

Desde o seu lançamento, o livro, tem gerado uma enorme controvérsia no meio transexual, como de resto tem acontecido com o próprio conceito de autoginecofilia.

Nem é preciso dizer que autoginecofilia é um modelo horripilante para a maioria das transexuais. Uma das muitas razões desse horror é que, uma vez que a aceitação dessa tese invalida toda a dolorosa experiência de transição pela qual as transexuais se vêem obrigadas a passar. Ou seja, uma vez provada a sua autoginecofilia, seria muito desconfortável e até ofensivo para a maioria das transexuais admitir que foram tão longe, e de maneira tão perigosa e sofrida, apenas para atender os seus impulsos sexuais masculinos.

Existem, no entanto, certos aspectos que devem ser cruciais na distinção de autoginecófilos de transexuais. Quando uma verdadeira transexual termina seu processo de transição, o que se dá mediante uma CRG (cirurgia de reaparelhamento genital), ela não quer mais de maneira alguma ser identificada como transexual, mas como mulher de verdade, em todos os aspectos e sob todos os pontos de vista. Ou seja, uma vez que consiga se livrar dos atributos físicos que a identificam o sexo masculino, ela quer mais é desaparecer na multidão, sem deixar vestígios de que teria sido homem algum dia.

Um autoginecófilo, ao contrário, mesmo depois da CRG, tenderá sempre a perpetuar sua condição de "homem preso num corpo de homem", sem o que desapareceria o seu tesão original.

Autoginefilia ainda é um dos grandes tabus dentro da cultura transgênera, já que ninguém ainda se propôs a investigar seriamente qual seria o percentual de homens diagnosticados como transexuais que, fundamentalmente, estariam melhor classificados como “crossdressers autoginefílicos”.

Fonte: Leticia Lanz

TRAPs

Trap?

Tenho visto um crescente de traps por ai.

Não tenho informações exatas e nem a definição, nas geralmente são ou aparentam ser bem jovens e se expõem em seus quartos na web,.Parte da definição vemda tradução (armadilha) pelo fato de não se saber se menino ou menina. Algumas são gótica, pirata, emo, vampira ou simplesmente fazem o estilo lolita (que neste caso eu adaptaria para T-lollits) e enganam olhos desatentos e destreinados..rs

sábado, 3 de junho de 2017

Um menino pode ir para a escola de vestido?


A partir de agora, as normas de vestuário da maioria das escolas acabaram com qualquer dúvida. Meninas: nada de blusas que mostrem a barriga, saltos agulha, minissaia. Meninos: nada de calças caindo e camisetas justas.
Mas faça as contas: “regras” + “adolescentes” = “problemas”. Se a saia tiver um comprimento aceitável, um garoto pode usá-la? Uma menina pode ir ao baile de formatura usando um smoking?
Nos últimos anos, um número cada vez maior de adolescentes têm se vestido para posicionar-se – ou confundir – quanto a sua identidade de gênero ou orientação sexual. Com certeza, eles vêm confundindo funcionários e psicólogos das escolas, cujas respostas vão desde a indiferença à aprovação das proibições.
Na semana passada, um aluno do último ano do ensino médio de Houston que pratica crossdressing (veste-se usando roupas do sexo oposto) foi mandado para casa porque sua peruca violava as normas da escola de que o cabelo dos garotos “não podem ser mais compridos do que a parte de baixo do colarinho de uma camisa comum”. Em outubro, funcionários de um colégio em Cobb County, Geórgia, mandaram para casa um garoto que costumava usar peruca, maquiagem e jeans skinny. Em agosto, a foto de uma aluna do Mississippi foi proibida no livro de formatura porque ela usava um smoking.
Outras escolas aceitam melhor as expressões de gênero pouco convencionais. Em setembro, uma caloura da Rincon High School em Tucson, que se identifica como homem, foi escolhida como “príncipe” de um evento escolar. Em maio passado, um aluno homossexual do ensino médio em Los Angeles foi coroado rainha da formatura.
Conflitos quanto às normas relativas às roupas refletem um choque de gerações, com os alunos crescendo numa cultura que aceita melhor a ambiguidade e a diferença do que a cultura dos adultos que fazem as regras.
“Essa geração está de fato desafiando as normas de gênero com as quais crescemos”, afirma Diane Ehrensaft, psicóloga de Oakland que escreve sobre questões de gênero. “Muitos jovens dizem que não serão limitados pelo fato dos garotos terem que usar isso e as meninas aquilo. Para eles, o gênero é uma área para brincar com a criatividade”. Os adultos, ela acrescenta, “passaram a policiar os gêneros por meio o controle das roupas.”
As roupas sempre foram um código, principalmente para adolescentes ansiosos por expressar suas identidades em evolução. Todos os anos, as escolas tentam reprimir o que sai do lugar-comum proibindo os estilos mais recentes que representem ligações com gangues, atos sexuais ou uso de drogas.
Mas quando os educadores querem disciplinar um aluno cujo guarda-roupa expressa sua orientação sexual ou variação de gênero, eles devem levar em consideração as políticas contra a discriminação, fatores relacionados à saúde mental, padrões da comunidade e distrações em sala de aula.
E a segurança é uma preocupação fundamental. Em fevereiro de 2008, Lawrence King, um aluno da oitava série de Oxnard, Califórnia, que com frequência usava botas de salto alto e maquiagem, foi assassinado com um tiro na sala de aula por outro aluno.
Apesar de as discussões relacionadas às normas de vestuário serem muito mais uma curiosidade, aparecendo no noticiário quando há uma ameaça de processo legal, os educadores e psicólogos afirmam que cada vez mais escolas terão que lidar com elas no futuro próximo. Há 4.118 associações que congregam gays e heterossexuais em escolas de ensino médio por todo o país e que despertam mais consciência para assuntos como esses. As questões relacionadas às fronteiras entre gêneros estão fervilhando até mesmo nas escolas primárias, e os pais tentam abrir o caminho para seus filhos em blogs como acceptingdad.com ou labelsareforjars.wordpress.com.
No mínimo, mais alunos estão colocando sua curiosidade à prova. Durante dias intitulados “Mix’n’ Match” (algo como “misture e combine”), os alunos da escola de ensino médio Ramapo, em Spring Valley, NY, podem misturar bolinhas e listras, diz Diane Schneider, professora que é co-diretora da filial da Rede de Educação Gay, Lésbica e Heterossexual em Hudson Valley. Mas, segundo ela, esse ano “cerca de 50 adolescentes vieram como crossdressers”.
Isso tudo pode um excesso para certos educadores, que afirmam que o ensino médio não devia ser lugar para tratar de questões particulares de identidade. Para eles, a escola é estritamente um espaço de treinamento acadêmico e social para o mundo dos adultos e do trabalho.
“Já é difícil fazer com que as crianças se concentrem em um algoritmo – mesmo quando Jimmy não está sentado por perto usando batom e cílios postiços”, diz Kay Hymowitz, membro sênior do Manhattan Institute. Como as escolas são espaços comunitários, “a expressão pessoal sempre terá que ser limitada pelo menos em parte, assim como acontece no local de trabalho”, escreveu em um e-mail. Os diretores precisam de liberdade para determinar como os alunos devem se apresentar, acrescentou. “Você pode entender porque muitos diretores se cansam dessas discussões e decidem adotar uniformes escolares”.
No Wesson Attendance Center, uma escola pública do Mississippi, esse tipo de polêmica surgiu por causa das fotos de formatura. No último verão, durante sua sessão de fotos, Ceara Sturgis, 17, seguiu as regras e experimentou um tradicional vestido decotado preto, que deixava à mostra o colo e um pouco dos ombros.
“Ficou horrível!”, conta Sturgis, uma aluna exemplar, presidente da banda da escola e goleira do time de futebol, que se declara homossexual desde o segundo ano do ensino médio. “Eu parecia um menino usando um vestido! Eu tenho ombros largos e aquilo não era eu. Eu disse: ‘Não posso usar isso!’ Então minha mãe disse: ‘Experimente o smoking’. Aquilo sim parecia normal.”
Logo depois, os alunos foram informados de que as meninas deveriam usar vestidos e os meninos, smoking, para as fotos de formatura.
A filial de Mississippi da União Americana para a Liberdade Civil escreveu para a escola. Rickey Clopton, superintendente das escolas do condado de Copiah, não retornou as ligações. No mês passado, ele publicou uma declaração afirmando que decisão da escola “baseava-se em políticas educacionais legítimas e precedentes legais”.
No mês passado, Veronica Rodriguez, mão de Sturgis, pagou um anúncio de página inteira no álbum de formatura para incluir a foto de sua filha usando smoking.
Problemas de vestuário como esses vêm aparecendo há anos. No começo deste ano, depois de serem pressionadas por advogados, as escolas de Jackson, Mississipi, e Lebanon, Indiana, mudaram as regras e passaram a permitir que meninas usem smokings.
Mas em geral, os juízes dão bastante liberdade para os administradores locais. No condado de Marion, Flórida, os alunos devem se vestir “de acordo com o seu gênero”. Na última primavera, um menino foi mandado de volta para casa para se trocar depois de ter chegado na escola usando botas de salto-alto, sutiã com enchimento e uma camiseta de gola V.
“Ele estava vestido de mulher e isso atrapalhou o dia letivo”, disse Kevin Christian, porta-voz do distrito. “Essa é a questão por trás das regras de vestuário.”
Em alguns distritos, os administradores procuram definir a linha entre o que constitui uma distração em sala de aula e a necessidade de expressão dos alunos. Há alguns anos, o Dr. Alan Storm era superintendente-assistente da união das escolas do distrito de Sunnyside em Tucson e supervisionava questões legais e disciplinares.
Os diretores lhe perguntavam sobre casos relacionados a roupas e gênero: “Eles diziam: ‘o Johnny simplesmente apareceu usando uma blusinha! Eu devo suspendê-lo ou mandá-lo trocar de roupa?’”, lembra Storm. “E eu dizia: ‘Ele está usando algo por baixo?’ ‘Sim.’ ‘Então ele não está violando nossas normas. Você não tem direito de mandar ele trocar de roupa. Mas é sua obrigação garantir sua segurança’.”
Storm, hoje superintendente dos programas de tecnologia das escolas de ensino médio do condado de Pima, Arizona, ajudou a redigir políticas contra discriminação que protegem a expressão de gênero e a orientação sexual e que desde então são adotadas por alguns distritos de Tucson.
Essas políticas se entrelaçaram ao tecido social da escola de ensino médio de Rincon, afirma a conselheira educacional Brena Kazan: “As expressões de gênero são muito fluidas por aqui.” Alguns meninos usam maquiagem e lenços cor-de-rosa brilhantes; meninas usam camisetas grandes, shorts de basquete compridos – e parecem pertencer a uma gangue de meninos, contou. Além disso, a população de alunos inclui imigrantes vindos de mais de doze países. “Nossas crianças estão acostumadas a ver coisas diferentes e elas não se importam”, disse Kazen.
Mas a aceitação quase nunca é unilateral entre os adolescentes, e muito menos entre os adultos.
“Há outros lugares em que há reais problemas de segurança”, afirmou Barbara Risman, uma socióloga da Universidade de Illinois que estuda a identidade de gênero entre os adolescentes. “A maioria dos meninos ainda sentem necessidade de reprimir aspectos de si mesmos para evitar a perseguição dos colegas.”
No último outono, Stephen Russel, professor da Universidade do Arizona que estuda jovens gays, lésbicas e transexuais, fez uma pesquisa com cerca de 1.200 alunos de ensino médio da Califórnia. Quando perguntados por que os alunos que não são considerados tão “masculinos” ou “femininos” como os demais são perseguidos, a resposta mais comum foi: “por causa da maneira de vestir”.
Muitas vezes, as roupas dos alunos, que têm a intenção de expressar seu estilo, podem ser mal interpretadas e vistas como um demonstração de sexualidade. Nos últimos anos, o estilo “emo” saiu dos domínios do punk para se tornar algo comum, com meninos usando delineador para os olhos, camisetas justas e cabelos alisados e pintados de preto, para imitar cantores como Adam Lambert e Pete Wentz.
“As crianças emo passam por muitos problemas”, afirnou Marty Hulsey, psicólogo condado de Lee, Alabama. “Até mesmo os professores fazem comentários e eu tenho que impedi-los. Um menino emo me procurou e disse que estava sendo acusado de ser gay, mas ele tinha uma namorada.” Hulsey disse que enfatizou o direito do menino de usar as roupas que lhe agradassem.
Quando um diretor pede para um menino deixar sua bolsa em casa, esse pedido é uma tentativa de proteger o aluno de ser perseguido ou é uma perseguição em si?
As normas quanto às vestimentas devem ser colocadas em prática de maneira consistente, inclusive com medidas contra alunos heterossexuais que se vestem de maneira provocativa, afirma Diane Levin, professora do Wheelock College em Boston, que escreve sobre a sexualização das crianças.
Mas quer os diretores proíbam ou não as roupas que confundem gêneros, disse ela, os alunos não podem ser abandonados. Por que esse jovem escolheu se vestir assim? “O aluno está querendo chamar atenção?” questionou Levin. “A escola consegue garantir a segurança do aluno?”
Alguns psicólogos afirmam que embora as preocupações com a segurança não possam ser descartadas, os administradores das escolas de ensino médio não devem partir do pressuposto de que esses alunos serão alvo de perseguição dos colegas.
Jeff Grace, conselheira de uma associação de gays e heterossexuais em uma escola de ensino médio do centro de Columbus, Ohio, disse que a percepção dos alunos mudou ao longo da última década.
Ela conta o caso de Jack, um aluno que tem cabelos longos e lisos e prefere ser chamado por um nome feminino. Jack é cuidadoso ao não violar as normas de vestuário. Ela dá preferência a blusas apertadas, mas que não deixam nada à mostra, sapatos baixos e gloss.
“Um dia eu ouvi um aluno dizer: ‘Cara, tinha uma menina no banheiro masculino fazendo xixi de pé! O que é isso?”, ela se lembra.
Os banheiros podem ser perigosos para estudantes transgêneros. Mas os outros alunos responderam sem pestanejar, “Não era uma menina. Era só o Jack.”


* The New York Times, 09/11/2009, http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/2009/11/09/ult574u9796.jhtm,
Tradução: Eloise De Vylder