quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Uma condição básica para ser crossdresser


Eu não vou descrever porque vocês vivem isso na pele e sabem que não é fácil ser crossdresser. Ninguém gosta de nós.



No cinema, na televisão e na literatura o crossdressing masculino invariavelmente é retratado de modo desajeitado, ora como tragédia, ora como farsa. Somos mostradas sempre ou como o elemento periférico e destoante da sociedade “normal” e que, portanto tem que ser afastado do convívio com os demais (Vestida para Matar, Brian di Palma, 1980; O Silêncio dos Inocentes, Honathan Demme, 1991) ou como palhaços, fazendo todo mundo rir das nossas trapalhadas como mulher (A Noiva Era Ele, de Howards Hawks, 1949 ou Quanto Mais Quente Melhor, de Billy Wilder, 1959).



O único momento cinematográfico em que o crossdressing masculino é levado a sério é na forma drag, dentro do contexto gay. Entretanto, essas histórias tipicamente focalizam mais a vida e as vicissitudes de homens gays, com o crossdressing (drag) fazendo um papel de apoio secundário(Priscila, a Rainha do Deserto, de Stephan Elliot, 1994 ou Para Wong Foo, Obrigada por Tudo, Julie Newmar, de Beeban Kedron, 1995) 



Para ajuda-las a compreender o meu ponto de vista, tentem imaginar Hollywood fazendo um filme, estrelado por três astros do momento, com o enredo girando em torno de três crossdressers heterossexuais dirigindo de Nova York para um evento em Atlanta e cujo carro quebra em algum pequeno vilarejo ao longo do trajeto. Poupe o seu fôlego...



Sempre que homens heterossexuais se travestem em filmes isso acontece em nome da farsa, da comédia, da palhaçada. Outro dia eu estava olhando títulos na banca de saldos da minha loja local da Barnes & Noble e encontrei um pequeno livro sobre drags no cinema. O livro era muito interessante: se você o folheasse de um jeito, leria sobre homens se vestindo de mulheres nos filmes. Se você o virasse de ponta a cabeça e folheasse de trás para a frente leria a respeito de mulheres se vestindo de homens nos filmes. As duas partes se encontravam no meio do livro.



Em todos os exemplos do livro, as mulheres que se vestiram de homens no cinema encarnaram personagens marcantes, com problemas reais que só puderam ser resolvidos quando elas assumiram a identidade (e o status) de homem. Mesmo quando o filme era uma comédia, as mulheres travestidas de homens não eram, em nenhum aspecto, apresentadas de maneira burlesca ou cômica.



Homens vestidos de mulheres? Jerry Lewis, Os Irmãos Marx, Lou Costello, Tony Curtis, Jack Lemon, Cary Grant. No caso desses personagens, o uso de vestuário feminino é sempre feito no contexto de situações embaraçosas, becos-sem-saída em que até mesmo o “ato desonroso” de vestir-se de mulher passa a ser aceito. Para o público, não era de maneira alguma a opção mais desejável, mas era o único jeito. E isso faz com que a situação dos protagonistas apareça como hilária.



A ficção literária não faz muito melhor. No livro de Tama Janowitz "The Male Crossdresser's Support Group" (O grupo de suporte do Crossdresser Masculino), o personagem principal, uma mulher marginalizada trabalhando para uma Agência de Acompanhantes em Nova York finalmente “estoura” em sua profissão quando ela revela que na verdade é um homem.



A maioria das pessoas nunca vai encontrar nem será apresentada a um crossdresser. Podem até conhecer gente que é crossdresser, mas elas nunca saberão que eles são. Tudo que a maioria das pessoas sabe a respeito de crossdressing chegou a elas não apenas em segunda mão, mas também de modo altamente deturpado e preconceituoso. Definitivamente, nenhum crossdresser pode culpar as pessoas por terem uma concepção tão errada do que é crossdressing.



Mas e o que dizer a respeito da comunidade gay? Posso afirmar que nos meios gays não existe aceitação ampla e irrestrita dos crossdressers. Ao contrário do pensamento das massas, orientação sexual não está inerentemente conectada com gênero, assim como a imagem do homossexual afeminado é apenas um estereótipo.
Ainda que mais e mais organizações de gays e lésbicas estejam adotando políticas de inclusão dos chamados “transgêneros”, eu ainda não acredito que, ao nível de política de relacionamento pessoal, um gay ou uma lésbica sejam particularmente inclinados a aceitar um crossdresser.



Muitos crossdresser pensam que suas saídas estão limitadas aos bares e boates gays das suas comunidades. Eu tenho freqüentado bares nos últimos 25 anos, até mesmo trabalhado na porta de um ou dois. Nos bares, as pessoas não têm o mesmo tipo de comportamento que costumam ter no trabalho ou em casa. Você está tão propenso a encontrar problemas num bar gay como num bar hétero.



Finalmente chegamos à nossa própria pequena comunidade crossdresser, e cara, nossa casa é uma bagunça!



Recentemente o Transgender Fórum colocou a seguinte questão para os seus participantes: “O que mais incomoda você na comunidade transgênera?”

Esmagadoramente, a maior concentração de respostas foi a respeito das suspeitas, disputas e rixas entre crossdressers, travestis e transexuais. O “cisma” existente dentro da comunidade transgênera foi de longe a queixa número um.



Eu tenho podido comprovar isso na própria cidade onde eu moro. Aqui há duas filias de organizações de apoio aos crossdressers. Uma é a Tri-Ess; outra é a auto-denominada “grupo aberto” (Open Group). A freqüência a ambos os grupos é muito baixa, algumas vezes não passa de 4 ou 5 participantes em cada reunião, que é semanal. Novas afiliações estão estagnadas, com o número de novos membros a cada ano ficando igual ou inferior ao número de desligamentos por falta de renovação ou simples desaparecimento.



Embora a política de filiação do Tri-Ess seja mais rígida, a maioria dos afiliados pertencem a ambas as agremiações. A participação de S/Os é praticamente nula.



Eu queria ter ganho um dólar para cada vez que ouvi a frase “ser apenas um crossdresser” ao longo dos últimos dois anos. Vinda de um crossdresser, soa como uma apologia ao gênero. Dita por transexuais, um rebaixamento. Quantas vezes eu ouvi de alguém que começou recentemente a tomar hormônios coisas do tipo “e pensar que há um ano atrás eu era apenas uma crossdresser!”. Você pode imaginar o general Colin Powell se dirigindo a algum negro desempregado da periferia de uma cidade grande dizendo, todo sorridente e feliz, “e pensar que há 40 anos atrás eu era apenas um favelado!”



Eu já ouvi transexuais dizerem que não saem em público com travestis porque elas sempre poderão ser mais facilmente identificadas por estarem perto deles. Por dedução, pode-se concluir que é ainda mais difícil “passar” se estiverem em companhia de crossdressers... Bem, pelo menos transexuais e travestis têm algo em comum conosco: todos nós desejamos “passar”. Deveríamos pensar nisso, antes de nos encastelarmos em esquinas opostas.



Eu não sou nenhum paradigma de feminilidade (seja lá o que for que isto signifique), mas eu sempre me saí muito bem em público. E já fui a restaurantes e lojas com algumas transexuais realmente muito feias e desajeitadas, em função das quais eu recebi um monte de olhares e risinhos maliciosos que me doeram pra burro e deixaram minhas bochechas vermelhas, não de “blush”, mas de raiva. Mas eu tornaria a fazer isso de novo, com prazer.



O mundo hétero não gosta de nós, nós não temos nenhuma serventia para a comunidade gay e mesmo a nossa própria comunidade transgênera gostaria de se livrar de nós. Estranho, considerando que, como pessoas, crossdressers são esposos, pais, empregados, empregadores, profissionais liberais e proprietários de negócios. Cuidamos das nossas famílias, fazemos o nosso trabalho, estamos atentos à educação das nossas crianças, participamos da vida das nossas comunidades, enfim, cuidamos de nós mesmos e não aborrecemos ninguém.



Não fazemos nada que nos torne algum tipo de persona non grata dentro das nossas comunidades. Ah! Eu quase me esqueci: - a gente é crossdresser...



Bem, aqui estou eu, uma página e meia de um artigo intitulado “uma condição básica para ser crossdresser” e nem comecei a responder a questão. Como tem sido o caso de muitos outros tópicos da minha vida, este tema também ganhou um novo enfoque a partir do exercício do meu papel de pai com a minha filha de nove anos.



Nos próximos anos, a vida dessa garota vai ser virada de ponta a cabeça e, na faixa dos 12 ou 13 anos, ela terá de tomar decisões a respeito de fazer sexo, usar drogas, beber, fumar, o que fazer do seu futuro. A maior parte do tempo ela estará em companhia de pessoas que estarão passando pelo mesmo redemoinho existencial, se deparando com os mesmos problemas, ameaças, oportunidades e desafios. Será que ela pode procurar algum tipo de ajuda e aconselhamento entre seus pares? De jeito nenhum!



Como adolescente, ela desejará pertencer ao grupo, simplesmente pelo fato de pertencer ao grupo. Volta e meia, ela terá que decidir se deve se comportar como todo mundo ao seu redor, ou comportar-se da maneira que ela acha mais correta. Como é que ela tomará essa decisão? O que neste mundo poderá prevenir que uma garotinha seja apanhada nas armadilhas e seduções de uma infinidade de mensagens verbais e não verbais que ela recebe diariamente do seu grupo?



A resposta é: uma pequena voz dentro da sua cabeça. Uma voz que a chama, tentando conduzi-la para um lugar seguro dentro dela mesma, onde a sua individualidade possa desabrochar e crescer de maneira segura, calma e auto-sustentada. Onde ela possa viver com ela mesma, do jeito que ela acha que deve ser.



Um amigo meu, muito sábio, que também é crossdresser, chamou-me a atenção para algo contido na nossa linguagem. Nós sempre pensamos nos seres humanos como tendo cinco sentidos: visão, audição, tato, paladar e olfato, embora nós usemos frases como “senso de humor” e “senso de direção”. Ainda que eles sejam sentidos, certamente não podem ser estudados cientificamente, como os cinco sentidos anteriores. Assim, obviamente, a ciência médica não os reconhece. O que dizer, então, a respeito do “sentido de si mesmo”?



Será que você tem um sentido de si mesmo quando deixa outras pessoas dizerem a você quem você é, o que você é, o que você deve pensar, como você deve se sentir? Você pode distinguir entre idéias originais e pensamentos que surgem de dentro de você mesmo e que refletem a atividade do seu “self” ou você permite que de alguma forma as idéias e as palavras de outras pessoas se transformem nas suas próprias?



Um forte sentido de si mesmo torna-se indispensável quando percorremos um caminho como o nosso, que a maioria à nossa volta considera inadequado, desonroso e impopular.



Um forte senso de si mesmo é absolutamente essencial quando participamos de um grupo ou organização que prescreve regras muito rígidas de como seus membros devem ser e agir. A pressão para se conformar a essas regras e condições choca diretamente com nossa noção do que somos como indivíduos.



Geralmente falamos de alienação no sentido relacional ou seja, no sentido de estar distanciado de outras pessoas, fatos ou eventos. Porém, a mais devastadora forma de alienação é o distanciamento de si mesmo, a perda do “self” individual e sua substituição por um “corpo coletivo”, ou seja, os padrões de comportamento do grupo.



Como uma garotinha adolescente, nós crossdressers estamos permanentemente sendo ora ameaçados, ora seduzidos pelo ambiente à nossa volta. As mensagens são claras e consistentes. Para todo lado que a gente olhe, as pessoas e as circunstâncias estão sempre nos dizendo que nós estamos errados. Para muitos, começa dentro da própria casa, com a rejeição e a perplexidade de esposas, filhos, pais, parentes e amigos ao nosso modo de vida. Mesmo entre nossos pares, há quem use o seu conhecimento de crossdressing para nos marginalizar ou nos submeter. E, é claro, dentro da própria comunidade (?) transgênera, há subgrupos que claramente não nos aceitam e francamente nos combatem e rejeitam.



Isto não significa dizer que travestis e transexuais sejam culpadas de todos os problemas dos crossdressers. Longe disso. Transgeneridade é muito mais uma criação de uns mil anos de patriarcado, primeiro cristão, depois patriarcado científico, do que o tabu de homens usando vestuário feminino. A existência de um diagnóstico clínico para a transexualidade e a tecnologia médica para “trata-la” faz as crossdressers parecerem indesejosas de procurarem ajuda para o seu problema. De fato, muitas crossdressers não vêm a si mesmas como tendo problemas.



E isso leva embora uma razão para o crossdressing. No modelo transexual, usar vestuário feminino faz com que a imagem exterior coincida com a imagem interior. Crossdressers, entretanto, não buscam ser mulheres no sentido definitivo do termo. Assim, a imagem interior permanece masculina enquanto a exterior se transforma em feminina. E daí?



E eu ainda vou acrescentar mais. Quando feita de maneira adequada por uma crossdresser que dedica tempo e energia para aprender a criar uma imagem de qualidade, que aprende a arte e o uso da maquiagem, que observa cuidadosamente a moda e aquilo que é mais apropriado usar tendo em vista o seu biótipo, sua aparência exterior é grandemente melhorada. O uso apropriado de maquiagem e vestuário melhora a aparência de qualquer um, homem ou mulher.



Já encontrei pessoas muito atraentes que eram homens usando maquiagem e indumentária feminina. Não garotas espetaculares, apenas pessoas de boa aparência. Elas “passam”? Provavelmente não, mas sua aparência bem cuidada certamente mereceria o respeito e atenção de todos. Não havia nada imoral ou pernicioso na sua aparência ou no seu comportamento.



Muitos crossdressers (e transexuais) não sabem o suficiente a respeito do uso de maquiagem nem sobre o tipo de roupa que lhes cai melhor, nem o que está na moda. Muitos não sabem nem mesmo combinar peças e complementos de vestuário. O resultado disso é uma imagem sofrível. Mas essas coisas são itens que qualquer pessoa pode aprender e melhorar sensivelmente a partir da prática.



Infelizmente, os mesmos quesitos para ser crossdresser – um forte senso de si mesmo e uma natureza independente – também dificultam os crossdressers de se agruparem. Não é do perfil de pessoas com tais características se amontoarem em grandes rebanhos. Figuradamente, podemos dizer que o meio crossdresser é uma comunidade de capitães, cada um à procura de uma tripulação.



Teoricamente, qualquer crossdresser viveria com muito menos stress se permanecesse como um “homem normal”, vivendo o anonimato de uma vida de “homem normal”, fora do alcance de qualquer tipo de reprovação da sociedade.



Mas não é da natureza de quem é crossdresser. Ser CD significa expor a essência da sua própria natureza, ainda que isso desafie todos os cânones da sociedade, por representar a escolha de um caminho não-aceito e condenável.



Para isso é necessário um forte senso de si próprio, uma forte aceitação de si mesmo. É isto que faz um crossdresser. É isso que, de resto, faz qualquer pessoa realizar-se em qualquer coisa que venha a fazer na vida.

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(*) Yvonne é uma crossdresser casada com uma esposa S/O que mora em Albany, na região de Nova York. Seu site contém ótimos artigos e dicas para a vida de toda crossdresser.

Normalmente o a palavra “crossdresser” é confundida com transexualidade ou travestilidade, mas não há ligação alguma entre essas três categorias.
“Crossdresser” é um fenômeno comum na sociedade, e nada mais é do que o comportamento de usar roupas diferentes do sexo anatômico. E isso, para o indivíduo adepto à prática, é necessário para compor sua autoestima, seja todos os dias ou apenas vez ou outra. Em geral, não há regras.
Na experiência “crossdresser” não existe a necessidade de realizar alterações corporais como, por exemplo, terapia hormonal ou uso de silicone. Além disso, ao contrário do que muitos pensam, a pessoa crossdresser não usa adereços do sexo oposto para se sentir excitada. Ser crossdresser é apenas mais uma das formas subjetivas da sexualidade se expressar na sociedade.
Outro ponto importante para ser elucidado, é que a maioria dos crossdressers possui identidade de gênero masculina, ou seja, não se sentem mulheres. Aliás, muitos possuem esposas e namoradas que apoiam e os auxiliam nas produções.
Pessoas crossdresser não são loucas ou devem ser "curadas”. São apenas seres humanos expressando a sua sexualidade.
Karlesy Stamm
Psicóloga Especialista em Sexualidade Humana CRP 08/16133 

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

SAPOS E PRINCESAS

RESENHA: VENCATO, Anna Paula. 2013. Sapos e Princesas: prazer e segredo entre praticantes de crossdressing no Brasil. São Paulo: Annablume.



 Reprodução da capa do livro resenhado

Francisco Cleiton Vieira Silva do Rego
Mestrando em Antropologia SocialUniversidade Federal do Rio Grande do NorteBolsista CAPES


A leitura da etnografia realizada entre crossdressers por Anna Paula Vencato promove ao leitor uma experiência significativa de transporte ao universo dos sujeitos que ela nos apresenta. São detalhes sobre homens que se vestem de mulheres, uma experiência transitória de posição no gênero diferente ao qual está habituado. Antes de se montar são sapos, com a montagem – maneira como chamam estar vestida de mulher –, são princesas.

Resultado de sua tese de doutoramento defendida em 2009, no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Sapos e Princesas: prazer e segredo entre praticantes de crossdressing no Brasil, editado pela Annablume, trata-se de um trabalho importante por situar de maneira não patologizante as experiências decrossdressings no nosso país. O livro se divide em cinco capítulos que situam o leitor de maneira detalhada entre os eventos organizados pelas crossdressers, e com isso, a análise de seus processos, a visibilidade de suas categorias nativas de explicação de suas práticas, e as nuanças entre noções de masculino e feminino, corpo e desvio.
Foram três anos de trabalho de campo, de 2007 a 2009 – iniciado de maneira mediada pela Internet no início de 2007 e efetivado face a face no final do mesmo ano –, que Vencato circula por histórias e vivências de se vestir do outro gênero entre homens de classe média e classe média alta do contexto São Paulo-Rio de Janeiro, principalmente. A autora se defronta com interlocutores multissituados, reunindo-se em ocasiões para compartilharem e se apoiarem nose vestir de mulher. Etnografia que se mostrou de difícil realização, pela dificuldade de acesso inicial.
A autora se defronta com uma série de negociações realizadas pelos sujeitos entre estar montada e suas outras instâncias de vida, como trabalho, relações familiares e amorosas etc. Definir essa experiência do crossdressingcomo simplesmente se vestir do outro gênero acaba por limitar o entendimento desse fenômeno, como bem nos explica a autora. Para o saber biomédico e psi, teríamos diante de nós uma experiência que representaria um transtorno de identidade de gênero. Afinal, desde que John Money (1981) surgiu com a naturalidade do gênero, e Stoller, em certa medida, institucionalizou tal transtorno, parece difícil, a este saber, pensar em diferentes maneiras de vivenciar o gênero que não seja o aliado à norma geral em vigor. Parece inconcebível a tais entendimentos que um homem possa desejar se vestir de mulher e construir todo um conjunto de esquemas interpretativos que continuem ou não com sua masculinidade quando não estiver montada. Parece que a transição, na maioria das vezes transitória, que essa experiência enseja, materializaria uma transfiguração do homem e do masculino que se permite transitivar-se pelo feminino e pela mulher.
Anna Paula ultrapassa os limites de como os sujeitos pensam as noções de gênero nessa experiência de crossdressing e reflete sobre as sociabilidades em torno de negociações, noções de desvio, hierarquias, diferenças, interferências corporais, vestuário, relações intrafamiliares a partir do crossdressing; e, o que descreve com detalhes, a organização, ou o que Simmel (1950) chamaria, a associação de indivíduos com pensamentos em comum, mas diferentes, sendo esse autor muito influente no trabalho de Vencato, inclusive nas entrelinhas.
As crossdressers se organizam em grupos secretos para se ajudarem na experiência se montar ou se vestir de mulher. Nisso, cria-se contornos de lidar com o medo de sair às ruas vestidas de mulheres e a de se reconhecerem enquanto crossdressers. Embora o Brazilian Crossdresser Club seja conhecido de certo modo, as identidades de seus membros são protegidas, uma vez que nem sempre têm revelado em casa sua prática. E, é através das relações estabelecidas por meio desse Clube que a autora irá realizar sua etnografia situada inicialmente no evento das Olim...piadas. Um evento grande que abarca socialidades entrecrossdressers e apoiadoras (Supportive Opposites, Genetic Girls) em um hotel afastado do olhar transeunte, que protege e dá liberdade para sentirem o vestir e o transitar no gênero feminino.
Esta resenha não me permite maiores delongas. Dentre as muitas contribuições deste livro encontram-se as observações da autora, de base etnográfica, de que as crossdressers não constituem um grupo homogêneo, podendo haver vários crossdressings – o que é importante para não engessar identidades. Além disso, pontua que não se trata de uma experiência de indivíduos transtornados ou doentes; e, a principal contribuição que visualizo é a de posicionar as falas desses sujeitos em esquemas de significado e de interpretação da própria vida de maneira legítima. São homens, “são quase mulheres”, estão entre o montar-se e o desmontar-se. São princesas aptas a viverem suas feminilidades, seu prazer, e sapos em terem suas práticas em segredo.

Referências Bibliográficas:
MONEY, John. 1981. Os papéis sexuais. São Paulo: Brasiliense.
SIMMEL, Georg. 1950. The Sociology of Georg Simmel. Translated and Edited by Kurt. H. Wolff. Glencoe, Illinois: The Free Press.


Francisco Cleiton Vieira Silva do Rego

Mestrando em Antropologia SocialUniversidade Federal do Rio Grande do NorteBolsista CAPESCurrículo Lattes

Um jovem é o novo rosto de uma empresa de maquiagem Por acaso ficar bonito não é coisa de homem?


“Olá, meu nome é James, pode me passar o rímel?”
Não é nenhuma novidade que os garotos se maquiem. David Bowie fez isso há mais de 40 anos, criando uma tendência que se resolveu chamar de glam rock. A novidade é que o rosto da campanha de uma empresa de produtos de maquiagem − que, ainda por cima, chama-se CoverGirl (“garota da capa”) − pertença a alguém que responde pelo nome de James Charles. E quem é James Charles? Ele se apresenta assim no Instagram: “Artista de maquiagem de 17 anos, cantor ocasional e covergirl”. James é um garoto.
Ainda é necessário esclarecer que gênero, sexo e orientação sexual não têm relação. A escolha de uma ou outra roupa não significa uma determinada orientação. Aqueles que praticam o crossdressing (literalmente, “vestir-se ao contrário”) são, para o professor Brett Genny Beemyn, da Universidade de Massachusetts-Amherst (EUA), “indivíduos que assumem aparência e conduta que são consideradas por certa cultura como sendo de outro gênero, mas não pertencem a ninguém”. Segundo uma pesquisa feita em 1999, citada no livro Today’s Transgender Realities: Crossdressing in Context (2008), 48,8% dos crossdressers se definem como heterossexuais.

O tabu do rímel

Muitos homens usam maquiagem diariamente: atores, apresentadores de televisão, roqueiros... e sempre com intenção de parecer mais bonitos. Em outras culturas − dos nativos americanos a muitas tribos africanas −, os homens pintam o rosto com diversos significados. Em nosso ambiente cotidiano, entretanto, isso não é comum. Um estudo realizado em 2014 por pesquisadores de váriasuniversidades britânicas concluiu que os homens estão cada vez mais interessados em sua imagem, mas na hora de enfrentar a maquiagem “ainda se regem por uma versão convencional da masculinidade”.
Lamentavelmente, essa imposição de gênero faz com que a maioria daqueles que usam maquiagem prefira que não se saiba disso. Em uma pesquisa realizada em 2010 no Reino Unido, perguntaram a 1.800 homens se eles usavam maquiagem em segredo, e 11% responderam que sim. Destes, 71% recorriam ao corretor, 64% ao gloss de lábios e 49% ao delineador.
Também era impensável até pouco tempo atrás que os homens usassem perfumes de aromas florais e exóticos. Hoje, no entanto − após insistentes e atraentes campanhas publicitárias −, tais perfumes impregnam o pescoço de milhões de homens no mundo inteiro. Será que a CoverGirl conseguirá, finalmente, quebrar o tabu da maquiagem?

terça-feira, 29 de agosto de 2017

O que é um homem feminino?

Não sei ao certo, mas eu sou apenas uma pessoa que não se importa com barreiras de gênero nas minhas escolhas, e isso não se limita apenas as minhas roupas.

Me chamo Samantha Oliver (e Victor), nasci um homem biológico, tenho 28 anos, sinto meu lado feminino desde que eu era uma criança, uso roupas femininas desde a pré-adolescência, ultimamente tenho me visto como uma pessoa de gênero fluido, moro em Curitiba-PR, sou casada, a esposa sabe de tudo e me apoia, trabalho no dia a dia como engenheiro civil, não tenho filhos, convivo com dois gatos, dirijo um Fusca preto à 9 anos, gosto muito de música, sou baixista e aspirante a vocalista. Faltou algo?

Tenho dedicado meu tempo escrevendo esse blog principalmente por esses motivos:
- Questionar a visão de gênero da nossa sociedade, não deveríamos nos esconder a vida toda;
- Ajudar as meninas como eu com dicas para facilitar suas transformações, nem toda dica feminina serve para o corpo masculino;
- Poder me aproximar de outras pessoas que pensam igual.

Espero muito que gostem do meu trabalho ♥♥♥


Samantha Oliver

Autoginecofilia,

O termo Autoginecofilia, que significa literalmente "amor a si mesmo como mulher", foi criado pelo Dr. Ray Blanchard, que na ocasião era psicólogo clínico do Clarke Institute of Psychiatry, em Toronto, Canadá.

Com o objetivo, segundo ele, de aprimorar os critérios de classificação das pessoas trans, Blanchard partiu de um critério de excitação sexual que o levou a dividir a população transgênera em dois grupos que denominou, respectivamente, deautoginecofílico (ou autoginefílico) e androfílico.
Autoginecofilia

Um transgênero do tipo androfílico, que ele também denomina de transexual homo, é aquele que só se excita sexualmente com um homem. Segundo ele, esse tipo é menos propenso a fazer a cirurgia de reaparelhamento genital, porque o pênis continua sendo um detalhe importante na sua relação sexual.

Ao contrário, o transgênero autoginecofílico é aquele que se excita sexualmente com a idéia de estar sendo ele próprio uma mulher (Blanchard argumenta que nenhuma mulher se excita pelo fato de ser mulher...). O tipo autoginecofílico tem quase sempre o desejo cirúrgico, pelo fato do seu objeto de orientação sexual ser o seu próprio corpo feminino idealizado, donde Blanchard denominá-lo de trans hetero.

O autoginefílico é um homem que deseja ardentemente ser mulher, não pelo fato puro e simples de ser mulher, mas como um homem que “linka” sua excitação sexual masculina (tesão) com o fato de estar vivendo dentro de um corpo de mulher. Ou seja, ele deseja ser mulher para sentir-se dentro de um corpo de mulher, principalmente nas horas que busca expressar a sua sexualidade. Evidentemente isso não é a mesma coisa que desejar ser "completamente mulher", possuindo não só todos os atributos físicos e mentais de uma fêmea da espécie, mas também a sua identidade social e o seu estilo de vida (gênero feminino). É justamente esse torturante desejo de ser mulher, em todas as dimensões e sob todos os pontos de vista, que emblematicamente sempre caracterizou a transexualidade: - mulheres presas em corpos de homens.

AutoginecofiliaEm defesa da autoginefilia como causa da transexualidade, existem especialistas como a Dra. Anne Lawrence, ela mesma uma transexual operada de Seattle-EUA, que descreve o fenômeno como"homens presos em corpos de homens" (ao contrário da tradicional assertiva "mulheres presas em corpos de homens"). Como comprovação, ela apresenta o seu próprio caso, dizendo que a autoginecofilia é uma forma de parafilia (desvio da orientação sexual, como a BD/SM) voltada para o próprio corpo feminino. Argumenta ainda que, para um autoginecófilo, o objetivo de virar mulher equivale a casar-se para os heteros.

Em 2003, o Dr. J. Michael Bailey, da Northeastern University, publicou uma obra muito controversa que trata de autoginecofilia, denominada "O homem Que Seria Rainha: a Ciência da Mudança de Gênero e Transexualismo" (The Man Who Would Be Queen: The Science of Gender Bending and Transsexualism)

No livro, Bailey argumenta que a homossexualidade masculina é congênita e resulta da hereditariedade e do ambiente pré-natal no útero materno. Ele também sugere que a transexualidade é tanto um tipo extremado de homossexualidade quanto a expressão de uma parafilia, conhecida como autoginecofilia.

Desde o seu lançamento, o livro, tem gerado uma enorme controvérsia no meio transexual, como de resto tem acontecido com o próprio conceito de autoginecofilia.

Nem é preciso dizer que autoginecofilia é um modelo horripilante para a maioria das transexuais. Uma das muitas razões desse horror é que, uma vez que a aceitação dessa tese invalida toda a dolorosa experiência de transição pela qual as transexuais se vêem obrigadas a passar. Ou seja, uma vez provada a sua autoginecofilia, seria muito desconfortável e até ofensivo para a maioria das transexuais admitir que foram tão longe, e de maneira tão perigosa e sofrida, apenas para atender os seus impulsos sexuais masculinos.

Existem, no entanto, certos aspectos que devem ser cruciais na distinção de autoginecófilos de transexuais. Quando uma verdadeira transexual termina seu processo de transição, o que se dá mediante uma CRG (cirurgia de reaparelhamento genital), ela não quer mais de maneira alguma ser identificada como transexual, mas como mulher de verdade, em todos os aspectos e sob todos os pontos de vista. Ou seja, uma vez que consiga se livrar dos atributos físicos que a identificam o sexo masculino, ela quer mais é desaparecer na multidão, sem deixar vestígios de que teria sido homem algum dia.

Um autoginecófilo, ao contrário, mesmo depois da CRG, tenderá sempre a perpetuar sua condição de "homem preso num corpo de homem", sem o que desapareceria o seu tesão original.

Autoginefilia ainda é um dos grandes tabus dentro da cultura transgênera, já que ninguém ainda se propôs a investigar seriamente qual seria o percentual de homens diagnosticados como transexuais que, fundamentalmente, estariam melhor classificados como “crossdressers autoginefílicos”.

Fonte: Leticia Lanz

TRAPs

Trap?

Tenho visto um crescente de traps por ai.

Não tenho informações exatas e nem a definição, nas geralmente são ou aparentam ser bem jovens e se expõem em seus quartos na web,.Parte da definição vemda tradução (armadilha) pelo fato de não se saber se menino ou menina. Algumas são gótica, pirata, emo, vampira ou simplesmente fazem o estilo lolita (que neste caso eu adaptaria para T-lollits) e enganam olhos desatentos e destreinados..rs